JOTA RAMOS

Jota, um artista multidisciplinar que trabalha seu próprio corpo como um território de constante exploração, um território para o qual elu nos convida a repensar tudo.

Como você se apresentaria brevemente?

Meu nome é Jota, sou uma pessoa trans não – binárie, brasileire de Porto Alegre, artista multidisciplinar e artivista navegando meus próprios limites entre o território do corpo e o corpo território.

O que vem na sua cabeça quando você pensa em Porto Alegre?

Quando eu penso em Porto Alegre eu penso em uma trajetória entre dois mundos. Entre o núcleo 6 da Cohab Rubem Berta e uma escola de ballet elitizada onde eu era a única criança negra periférica. Eu me lembro de ter uma sensação muito intensa de não pertencimento. Embora dançar me colocasse num lugar onde eu me permitia expressar sentimentos, aquele grupo de pessoas, o pensamento coletivo e o distanciamento da minha realidade fazia com que tudo fosse motivo de uma estranheza que eu era capaz de sentir, mas ainda não era capaz de entender. Quando eu penso na minha infância e adolescência em Porto Alegre penso também na força da minha mãe, navegando esses dois opostos comigo e todas as outras questões diretamente relacionadas.

Quando e como foi o seu primeiro contato com o mundo artístico?

Meu primeiro contato foi com o ballet, comecei com 4 anos, depois também fiz teatro e desde muito pequeno eu escrevo. Eu lia muito, meus pais sempre me incentivaram muito a ler. Eu me lembro do primeiro conto que eu escrevi que depois virou uma série de contos “A História de um Cachorro Listrado”, hoje faz muito sentido porque era a minha história, a história de um corpo que se sente deslocado, eu era o cachorro listrado.

Hoje você trabalha com arte, você tem uma formação acadêmica em arte? Como as coisas aconteceram depois que você concluiu o ensino médio?

Minha mãe, que hoje é aposentada, era auxiliar de enfermagem e eu sofri muita pressão pra fazer faculdade na área da saúde. Eu tinha 17 anos quando entrei na universidade e naquele momento achei que era o correto. A inclusão no mercado de trabalho era prioridade na minha família e esse era um curso de bacharelado financeiramente viável pro financiamento estudantil e que ofertava oportunidades de emprego com maior frequência. Trabalhei brevemente no hospital e odiei. Alguns anos depois fiz um MBA em Ciências Sociais Aplicadas em uma tentativa de mudança de carreira. Nesse meio tempo, recebi um convite do Daniel Colin para participar da performance “Jesus Lava Cús” e foi quando eu percebi que estava desfalecendo aos poucos tentando ser alguém que eu não era mas que a sociedade esperava que eu fosse.

Quando e como Berlim aparece como uma opção?

Em 2019 eu fui selecionado para participar de um workshop para pessoas negras com duração de dois meses em Nova Iorque, no Jamaica Performing Arts Center. Depois dessa experiência, por estar engatinhando no mundo da arte como artista visual e ter tido contato com outros artistas negros sobretudo no Queens, eu tive muita vontade de explorar minha prática em performance em um ambiente onde eu não me sentisse observado por olhos que tinham outra expectativa sobre a minha organização de vida. Eu senti uma urgência em estar longe do padrão heterocisnormativo. Berlim foi uma opção pela facilidade em obter o visto de artista e pela curiosidade em vivenciar uma das capitais da arte no mundo.

Como foram esses primeiros passos na cidade?

Berlim não é uma cidade fácil. O idioma é uma barreira muito grande quando existe a necessidade de resolução de questões burocráticas. Por outro lado, é um lugar que me proporcionou ser quem eu realmente sou. Eu não sinto que poderia expressar minha identidade de gênero tão livremente em outro lugar, o Brasil ainda é o país que mais mata pessoas trans, onde a maioria são pessoas negras. Ainda é difícil morar aqui mas aos poucos as coisas foram se encaixando e eu fui percebendo que mesmo tendo que me infiltrar por algumas arestas criando fissuras, essas fissuras são permanentes e fazem parte de uma construção individual e coletiva.

Como você descreveria brevemente sobre do que se trata as suas obras? Qual seria o tema comum que permeia o seu trabalho?

A partir de experiências artísticas autobiográficas, eu exploro práticas de performance, vídeo, instalação, fotografia, drag, desenho e poesia. Criando subjetividades dissidentes periféricas que dialogam com referências simbólicas, etimológicas e identitárias negras e de gênero eu busco trazer uma reflexão poética como espaço de cura pensando em como retratar a autenticidade do corpo pardo em sua forma genuína, como negro de pele clara. Minha pesquisa investiga ferramentas para construir uma representação antirracista e poderosa da sociabilidade e identidade de pessoas negras queer e sua jornada histórica.

Como você transiciona da dança ao uso do corpo como obra performática?

O ballet me ensinou muito sobre disciplina e persistência. Acho que muito da minha necessidade por rotina é um resquício dessa prática. Em algum momento essa técnica de movimentar o corpo pensada como universal deixou de fazer sentido pra mim, o ballet clássico usa o corpo como um instrumento que sempre pode mais e valoriza a individualidade. Como pensar sobre a decolonização do corpo num contexto onde o padrão europeu e a presença da colonialidade do saber são parte da base de um pilar? Comecei a pensar que não há política sem corpo e meu corpo é político. Através da performance e do meu corpo como obra performática eu encontrei outros possíveis caminhos para quebrar essa estrutura. A arte traz o corpo a tona a todo instante, enquanto obra em perigo, expondo e desmistificando coisas sobre o mesmo, que é muito visto ainda como um objeto. Principalmente o corpo negro. A performance pra mim acalma um pouco essa busca incessante por esta voz corpórea, que grita e se faz presente de diversas formas.

Ao tratar temas relacionados com protesto, corpos dissidentes, minorias, etc., você acredita que as obras devem estar mais encriptadas para o público ou você permite que você trabalhe com altos níveis de abstração?

Eu não penso muito sobre o nível de entendimento do público quando estou em um processo. O público que eu quero me relacionar são pessoas negras. Pessoas negras e queer que de alguma maneira se identificam com o meu trabalho. A obra nunca vai ser encriptada para essas pessoas porque em algum nível elas entendem o que estou sentindo. O resto não entende porque não é a realidade delas e o mínimo que podem fazer é pensar e refletir por elas mesmas a motivação disparadora para a obra.

Você se sente mais vulnerável ao mostrar temáticas pessoais que, por exemplo, alguém que se dedica a pintar natureza morta?

Com certeza. Me exponho de uma maneira que fico completamente vulnerável e desnudo. É como se eu estivesse do avesso permitindo que as pessoas explorem e analisem partes de mim.

Conte um pouco sobre quem é Kaputino?

Kaputino é muito mais do que a minha persona drag king. Ele nasceu durante a pandemia em um momento que eu me questionava muito sobre identidade de gênero e não – binariedade. Eu estava sendo atravessado por questões políticas e de gênero, principalmente sobre performatividades que colocam em pauta e questionam estereótipos e buscam diferentes manifestações para a masculinidade, sobre signos do que é feminino e do que é masculino. Foi através do Kaputino que fui me entendendo e me aceitando como uma pessoa transmasculina não – binária. Lembro que fui invadido por uma plenitude imensa quando fiz barba e bigode com o meu cabelo pela primeira vez. Minha cabeça explodiu. A partir daí comecei a trazer elementos masculinos para o meu dia – a – dia. Para mim o fazer drag é mais que uma performatividade artística, é um meio para o autoconhecimento, mas essa é a minha experiência.

Qual relação você tem com o público durante as suas performances? Você lembra algum momento que você se sentiu impactado?

Normalmente não penso se o público vai interagir ou não. Sempre acho que existe a possibilidade de interação e a partir disso vou sentir o que está acontecendo no momento. Acho que depende muito do lugar e do público a forma que vou interagir caso aconteça.

O fato de você ser um artista multidisciplinar é porque você busca isso ou acaba sendo espontâneo?

Ser um artista que navega entre diferentes práticas e poder trabalhar com esse cruzamento de disciplinas acontece de uma forma bem orgânica pra mim, porém tudo começa com a palavra escrita. O ato de escrever é a porta de entrada para minha canalização de emoções, é onde eu consigo fazer o primeiro deságue e deixar tudo começar a fluir. Sempre tenho uma ânsia em trazer essas palavras pro corpo, sinto como se precisasse engolir as palavras para digerir a escrita e depois colocar para fora outra vez com o corpo. Independente da prática, todo o meu trabalho é sobre uma experiência que eu passei ou estou passando e preciso desse ritual para acessar e curar uma situação. Esse ritual é para mim, o resultado é uma consequência.

Quais as residências artísticas que você já fez e que conselhos poderia dar às pessoas que querem aplicar para este tipo de estudo?

Eu já participei de algumas, mas as mais recentes foram o programa de formação de escritores da FLUP, a residência artística Tracce na Itália e o workshop Black Art Action Berlin. É importante fazer um filtro dos editais disponíveis e ver se a proposta se encaixa com o seu trabalho e linha de pesquisa. Existem muitas oportunidades disponíveis, mas nem todas contemplam o que cada um busca como artista, sobretudo quando se trabalha com arte decolonial e gênero. Apesar do mundo da arte ser diverso em linguagens e autorias, ainda existe uma manutenção em seu interior de estruturas que naturalizam a predominância das autorias cis, brancas e de origem ou descendência europeia.

Quais projetos você tem para este 2022?

Em março de 2022 eu vou para o Brasil fazer parte da residência artística Presença Negra no Museu de Arte do Rio Grande do Sul e também faço parte do programa de mentoria do PIAR – PerfocraZe que é um programa de 12 meses que culmina em uma exposição coletiva em Ghana.

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